Passado, presente e futuro de uma atriz que, a cada ano, acumula mais sucessos
Por Thalita Fleury
Karin Rodrigues já foi modelo, atuou em novelas, no cinema, no teatro, trabalhou com renomados diretores como Antunes Filho, Adolfo Celi, Bibi Ferreira e casou-se com o mais respeitado ator do teatro brasileiro, Paulo Autran. Com o relacionamento, sua carreira passou a ser sempre relacionada ao marido e, com isso, a longa trajetória artística da atriz acabou sendo deixada de lado pela mídia, como se seu sucesso resultasse somente de seu relacionamento com Autran. A verdade, desconhecida principalmente pelas novas gerações, é que Karin Rodrigues é e sempre foi muito mais do que isso.
Apesar de seu sucesso e poder aquisitivo, a atriz tem uma vida sem extravagâncias, fato que pode ser percebido já com uma rápida visita a sua casa, no bairro do Jardins, em São Paulo. Quem não gosta de cachorros deve se preparar para visitá-la. Logo na entrada, suas três cadelas vira-latas oferecem uma recepção calorosa, pulando e lambendo quem chega. As cadelas têm lugares garantidos até mesmo na sala-de-estar, local onde a atriz mais gosta de ficar. O sofá possui um pano para que elas possam deitar e a poltrona mais imponente da sala já é território marcado de uma delas. A sala tem uma decoração simples, com móveis antigos, estantes com livros e uma enorme janela com vista para um belo jardim, que está sempre cheio de pássaros por sua tranqüilidade.
Esse refúgio, tão calmo, camufla uma das mais evidentes características da atriz – sua inquietação, nem um pouco inibida por seus 72 anos. Karin Rodrigues tem dificuldades até mesmo para dar uma entrevista, já que tem que ficar sentada, sem poder se mexer demais, mudar de assunto ou poder fazer outra coisa. “A dona Karin não pára quieta um minuto, ela é muito rápida”, conta Nalva, a empregada que trabalha em sua casa.
Mesmo tendo esse perfil, sua rotina é calma e imprevisível. Acorda cedo, toma café, passeia durante 40 minutos com suas cadelas, volta pra casa, limpa a sujeira que elas fazem no quintal, alimenta os pássaros que pousam no seu jardim e lê jornal. É neste momento que, segundo ela, começa seu dia. “Aí eu gosto de ter sempre uma página em branco, de nunca estar programada pra nada”, conta a atriz. Muitas vezes, porém, ela preenche essa página lendo livros e mais livros. Em cada canto de sua casa há uma estante abarrotada deles. São de todos os tipos e autores: João Guimarães Rosa, Orson Welles, Freud, José Saramago, Paulo Francis, Machado de Assis, Clarice Lispector. Obras de literatura brasileira, russa, americana, alemã, inglesa, francesa, japonesa, ensaios sobre física quântica, livros de psicanálise. A impressionante quantidade de livros é resultado de uma coleção acumulada pela atriz desde seus 20 anos. “São amigos que eu tenho. Eu sempre falo que vou começar a relê-los e não comprar mais. Mas não consigo”, diz. Naquele momento, o livro que estava com a página marcada em sua mesa de centro era “Ganhando meu pão”, de Gorki.
A paixão pela cultura e a vontade de ser atriz surgiu já na adolescência, logo após ter feito um pequeno papel em uma peça apresentada no Teatro Municipal, de uma companhia alemã. “Eu adorei o cheiro da coxia, o público, o nervoso da estréia. Achei aquele mundo maravilhoso”, lembra. O sonho de entrar na Escola de Artes Dramáticas, no entanto, foi colocado de lado por seu padrasto, que dizia que teatro não era coisa para moça de família. Por conta disso, ela teve que esperar para ter sua própria vida até que chegasse o momento que pudesse escolher o próprio futuro. Casou-se, virou dona de casa, teve dois filhos. Apenas depois disso, com 30 anos, é que pôde fazer aquilo que sempre desejou.
O seu primeiro passo não foi a busca pelos palcos. Como era muito bonita, apresentou-se a um fotógrafo e, depois disso, começou a fazer propagandas. Suas fotos começaram a aparecer nas revistas Manchete, Cruzeiro, Claudia. Assim, enquanto a vontade de atuar não a deixava, ela foi tecendo seus contatos. Dentre eles, estava o produtor de teatro Abílio Pereira de Almeida. Eles costumavam jogar tranca e foi em uma dessas partidas que ele perguntou se ela gostaria de fazer uma peça dele. Karin aceitou, estreando em “Deusa Vencida”, no teatro que na época se chamava Paramount.
Depois disso, acabou indo fazer televisão. Foi contratada pela Globo, fez várias novelas, mas como filmava no Rio de Janeiro, acabou cansando de ter que viajar sempre. Filmes, sempre fez poucos. Por causa de seu perfil europeu (cabelos loiros e olhos azuis) acabou não podendo participar da onda de filmes completamente voltados para a cultura nacional. Acabou optando definitivamente pelo teatro. “Em novela você trabalha das 7 da manhã até 7 da noite, nunca sabe quando vai gravar de novo, não pode marcar nada, você fica a serviço só daquilo”, explica. Ela prefere o teatro porque, além de ter um horário mais fixo, considera o contato ao vivo de maior qualidade.
Foi graças ao teatro que Karin Rodrigues encontrou o companheiro da sua vida, o ator Paulo Autran. Eles se conheceram em 1970, enquanto faziam a peça “Em família”, um texto do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho. Mas apenas após 4 anos é que ficaram amigos, enquanto faziam o grande sucesso “Ecos”. A amizade foi se fortalecendo até que eles começaram a ter um relacionamento amoroso. Vinte e cinco anos depois, eles oficializaram o casamento. Entre 1975 e 2007, fizeram 19 peças juntos.
Hoje, a atriz parece seguir os passos de Autran, que atuou até o fim de sua vida. Ela acabou de gravar o filme “Briga de Vizinhas”, uma comédia na qual interpreta a irmã de Eva Wilma e Vera Mancini. Agora, começa ensaiar a peça “Mãe é carma”, dirigida por Elias Andreato. Ela diz que sente uma sensação de vazio por fazer uma peça sem o marido após tantos anos. “Contracenar junto dele, com ele lendo o texto, dando palpite, ensaiando, era um céu. É muito esquisito agora, mas tenho que superar”, desabafa. O que é certo é que a contagiante alegria de Karin Rodrigues parece poder superar qualquer obstáculo. Como ela mesma diz, “se eu tenho talento pra alguma coisa, é pra viver”. Com toda sua energia, a atriz ainda promete importantes contribuições para o teatro nacional. Afinal, ela é a prova viva do ditado popular “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher”.